A HIPOCRISIA DE QUEM NÃO SE ACHA HIPÓCRITA


O texto a seguir seria uma resposta a uma discussão de Facebook.

As pessoas criticavam evangélicos que fizeram um abaixo-assinado pedindo que Cunha saísse da presidência da Câmara. O motivo da revolta dos seguidores da página no Facebook é que "os evangélicos são todos hipócritas, que mandaram seus fiéis votarem no Eduardo Cunha, e agora pediam sua saída".

E eu iria dizer que evangélicos não são todos iguais, de uma forma bem explicativa. Todavia percebi que estaria atirando pérolas aos porcos. Não porque eu sou melhor do que eles, ou porque ache que são "indignos" de ler o que escrevo. Simplesmente porque eles, ali, não estão interessados em ler o que eu tenho para falar. Leriam as três primeiras linhas, talvez menos, e simplesmente me chamariam de crente hipócrita, bitolado, etc.

Daí eu lembrei que eu tenho um blog e que eu poderia, em vez de gerar conteúdo para o condomínio fechado do Mark Zuckerberg (fica aqui meu pequeno protesto contra as redes sociais de forma geral - condomínios fechados onde tudo é homogeneizado e controlado), eu poderia escrever aqui, no meu blog que, ainda que não esteja no mundo totalmente livre, pelo menos pode ser indexado pelo Google, o que o torna mais acessível a muito mais gente.

Logo, se você leu até aqui, primeiramente MUITO OBRIGADO. Isto significa que você se interessou em ler um pouco do que eu penso. Em segundo lugar, faça um blogueiro feliz: deixe um comentário ao final do texto.

Todo mundo grita pra todo canto que existe diversidade, que a diversidade e a liberdade devem ser respeitadas, mas daí chega uma hora em que todo mundo quer ditar o tipo de cristão evangélico que você devo ser: corrupto, vagabundo, vota no Cunha, intolerante, sectário, proselitista etc.

O que as pessoas não sabem, ou parecem fazer questão de não querer enxergar, é que existem mais tipos de igreja evangélica/protestante no mundo do que se possa imaginar. Temos igrejas históricas tradicionais, protestantes, pentecostais, pedobatistas (batizam crianças), que batizam só adultos, que batizam por aspersão, que batizam por imersão, isso pra ficar só no campo dos costumes e doutrinas. Se formos para campos ideológicos, temos igrejas de direita, de esquerda, inclusivas, só pra negros, só pra brancos, só pra mulheres, para latinos em países europeus, para americanos em países latinos etc. As combinações são infinitas, tantas quanto a variedade humana. Temos igrejas boas e igrejas más (como as que apoiam a "KKK", a Ku-Klux-Klan), só pra citar mais um exemplo.

O grande problema é que a maioria das pessoas que gosta de criticar a igreja evangélica de forma geral são pessoas de pensamento obtuso, criados num catolicismo pseudo-heterogêneo, aprendido em verso e prosa de seus pais e líderes, que não deixa com pensem fora da caixinha religiosa e comportamental.

E veja bem que não estou dizendo que tais pessoas sejam religiosas. Sei que muitos são ateus, ou espiritualizados sem religião, mas ainda continuam reproduzindo a mesma forma de pensar de seus tataravós, dizendo que se uma pessoa está sob um rótulo, ela não pode agir diferente de tal grupo denominado por tal rótulo.

Estes jamais mudaram sua forma de pensar, mas simplesmente
passaram a se denominar de outra forma.

São gays, negros, mulheres, ateus, etc., que lutam pela diversidade dentro do seu grupo, mas que não conseguem aceitar que outros grupos sejam tão diversos quanto os deles.

Por dentro, estas pessoas continuam reproduzindo a voz do opressor contra todos aqueles que são diferentes. Eles querem vingança, querem ver o diferente sofrer, e disfarçam, sob o manto da justiça, as feridas abertas da vingança.

Gostaria de dizer que apoio os ideais pró-escolha, LGBTT, sou negro e defendo o direito dos ateus. Defendo um estado laico, entretanto cansei dessa generalização e dessa homogeneização que fazem do evangélico/protestante.

Participei de uma igreja em que o pastor, por 15 anos, jamais deixou um político entrar na igreja para falar de política e pedir votos. Das poucas vezes que algum político apareceu por lá, este pastor fez questão de atravessar a rua para o lado oposto ao da igreja, pois não achava certo nem mesmo permitir que um político discutisse apoio político na região da igreja, pois achava que Estado e Igreja não deveriam se misturar.

Conheço alguns como este pastor. Obviamente, não somos muitos, mas estamos tentando mudar a situação. Estamos tentando mostrar que o mundo não é maniqueísta, e nem mesmo a igreja o é.

Martinho Lutero, um dos pais da reforma protestante, que deu origem às igrejas protestantes históricas, e que abriu caminho para muitas outras, pode ter sido o cabra mais filho da puta que já existiu. Pode ter defendido os próprios interesses, ter sido antissemita e racista, mas propôs algo que foi de extrema importância para a Igreja até hoje: o livre exame das Escrituras Sagradas. Obviamente, que o “livre” dele não incluía camponeses leigos que se revoltavam contra seus amiguinhos senhores feudais alemães. Estes camponeses não mereciam a liberdade, mas sim o fogo, não o eterno, mas o de
verdade. Mas isto é assunto pra outra hora...

E é através deste livre exame das Escrituras que podemos sempre resinificar a posição da Igreja dentro do mundo. Obviamente, muita merda há de sair destas leituras da Bíblia. Muita coisa que só serve para o proveito pessoal, muita "viagem na maionese". Mas é disso que vive a liberdade, de erros e acertos, de dúvidas, e pensamentos, e mais dúvidas. Até porque não serei eu que direi o que é merda da leitura de ninguém. Isto, só o tempo dirá.

Todavia, prefiro viver em um mundo livre e cheio de erros, e que interpreta a Bíblia de formas muitas vezes erradas, mas que me dá a chance de enxergar esse erro, reler e tentar redirecionar a rota, do que em um mundo em que tudo já foi dito e feito, em que os caminhos são aqueles ou aqueles, em que eu não possa analisar, pensar, redirecionar, tirar minhas conclusões e ter meus pontos de vista.

Por isso, se você é cristão evangélico, pare pra pensar que o mundo não é a sua denominação. Imagine que existem milhares de visões sobre o seu Deus e o seu Salvador e que a sua, a do seu pastor, a da sua denominação é uma entre muitas.

Acredito que não estejamos aqui para obter respostas, mas para caminhar e chegar a um suposto fim sobre o qual ninguém por mais sensitivo e sensível às experiências espirituais seja, pode dar 100% de certeza, que, por mais brisado que um irmão ou líder possa ser, aquilo que ele diz ter certeza é nada mais que a compreensão e a experiência de vida dele sobre uma ideia de espiritualidade.

Que, assim como é relatado sobre o Apóstolo Paulo, que possamos um dia deixar de ver as coisas pelo espelho, e ver como que pessoalmente. Talvez nos surpreendamos, talvez não. Talvez nossas ansiedades sejam respondidas, talvez nada passe uma tempestade eletroquímica percorrendo uma massa encefálica. É crer pra ver, ver pra crer e viver pra ter certeza.

E se você não é cristão, não é evangélico, pare e pense: a Igreja Cristã, a Igreja Evangélica, se estende por todo o mundo, ou pelo menos por todo o mundo ocidental e parte do oriental. Ela cobre e é professada por povos muito distintos entre si, tanto hoje como há milhares de anos. Não é possível que haja essa homogeneidade dentro dela, e também não é possível que cada pessoa que professe uma fé cristã ou evangélica seja responsável pela hipocrisia de muitos líderes.

Obviamente, também não quero me eximir da responsabilidade que trago sobre mim quando me denomino evangélico ou protestante, ou somente cristão, devido aos deslizes que o cristianismo cometeu durante todos estes séculos. Contudo, deem uma chance para que cristãos que se importam tentem fazer algo a respeito. Tente identificar os diferentes, tente dialogar, tente conhecer o que se está sendo proposto por cristãos progressistas, pós-modernos e nos ajude a reparar as cagadas feitas em nome de Deus e Jesus.
Post a Comment

Popular posts from this blog

And what if I start writing in English?