A inércia dos bons e a perversidade dos maus


Ontem estava assistindo a um programa de TV que discutia o assunto "redução da maioridade penal". Era em um daqueles canais UHF, que ninguém assiste (infelizmente, bons assuntos quase sempre estão nos canais menos vistos).

Uma jornalista trouxe um dado interessante: no final de 2014, foi feito um referendo no Uruguai, juntamente com a eleição para presidente, sobre a diminuição da maioridade penal. Um detalhe é que o assunto começou a ser discutido no país em 2011 e, naquela época, mais de 70% da população se mostrava a favor de que jovens com 16 anos ou mais fossem julgados e encarcerados como adultos.

Desde então, setores da sociedade, jornais, empresas e indivíduos contra a redução passaram a fazer uma propaganda forte, com passeatas, programas de rádio e TV, matérias em jornais etc., tentando mostrar para a população porque a redução da maioridade penal era ruim e ineficaz.


O resultado é que, 3 anos depois, no final de 2014, pouco mais de 53% dos uruguaios votaram CONTRA a redução da maioridade penal. Isto deveu-se, ao que tudo indica, à manifestação massiva daqueles que eram contra a redução a fim de esclarecer a população, trazendo dados e chamando à sensatez a maioria esmagadora que antes era a favor da redução.

No Brasil, aqueles que estão encabeçando a mudança da lei para que adolescentes com 16 anos possam ser condenados como adultos por seus crimes são pessoas ligadas às bancadas mais conservadoras do país - conhecidos como "BBB": Bíblia, Bala e Boi, ou as bancadas Evangélica, Militarista e Ruralista. Estas pessoas deixaram a tempos de usar dados e fatos para apoiarem suas ideias — se é que um dia usaram. Antes, valem-se de um discurso baseado na emoção, e na falsa sensação de que os crimes de jovens infratores piorou, quando na verdade, o que parece ter acontecido é que a nossa percepção sobre a violência aumentou, devido à enxurrada de notícias que chega até nós através dos mais diversos meios.

Acho que acabei me afastando um pouco do meu objetivo. Não que tenha sido uma viagem perdida, mas deixa eu voltar.

Observem bem: o placar no Uruguai parece ter sido revertido por causa da insistência dos sensatos (sim: já assumi que ser a favor da diminuição é uma insensatez) em mudar a opinião daqueles que talvez, ao não se ter muita ideia do que se tratava, estava agindo com a maioria, talvez por impulso ou medo. Eu não sou um cara muito lido. Aliás, no mundo de blogs, jornais e escritores, sou menos que um átomo na imensidão do Universo. Contudo, me proponho — sem saber se conseguirei — escrever pelo menos algumas poucas linhas sobre por que não apoiar a redução da maioridade penal.

Se, na minha insignificância, eu conseguir no mínimo fazer com que uma pessoa a favor da redução fique em dúvida e vá se informar mais sobre o assunto, já estarei me sentindo vitorioso.
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