Você conhece Jeová?

Li o texto a seguir no Facebook do Coletivo Por Uma Espiritualidade Libertária. Ele não tinha título e tomei a liberdade de dar um pra ele. Talvez o título nem seja do gosto do dono do texto, mas acho que tem a ver com o contexto, sobre aqueles que acham que conhecem Deus e os outros. de longe, fazem uma ideia corrompida de Deus e acham que são Seus "baluartes".




Hoje, domingo, três mulheres e uma criança me chamaram no portão. Elas queriam me falar de Jeová.
Costumo receber as pessoas, por uma questão de delicadeza, ouvi-las com respeito e me despedir depois, sem delongas e aceitando panfletos.
Mas hoje não.
Hoje eu me senti no direito de dizer que não queria escutar, obrigado, assim, educadamente.

"Deixa essa mulherzinha pra lá, vai pro inferno de qualquer jeito", disse uma senhora, cuspindo no chão e provocando risada.

Nem dou conta de lembrar tudo o que foi adjetivo jogado contra a minha cara durante os anos - a linguagem que se pretende ofensiva é bastante criativa. Tivéssemos o mesmo esforço para lapidar elogios, nossa língua seria ainda mais rica.
Não me lembro a primeira vez que me chamaram de bichinha, de gay, de viado, de florzinha, de morde-fronha, de boiola, de pão-com-ovo, de ploc-ploc, de paneleiro...
Mas:
lembro que foi com cuspe.
lembro que foi com chute.
lembro que foi com riso.
lembro que foram 7 meninos.
lembro que fui parar no hospital, ossos do braço e dois dentes quebrados, precisou dar ponto, onze, para meus testículos não saírem, precisei tomar hormônio, precisei ficar de cama por dois meses sem conseguir me sentar.

Ali, na frente da minha casa, tudo isso voltou, como era natural que voltasse.
Então, eu disse, disse tudo. Com calma e respeito, como eu sei, sem agredir de volta.
Fiz uso da minha capacidade de entrelaçar palavras. Fiz uso do conhecimento que tenho de gente. Fiz uso do meu pensamento rápido. Fiz uso dos meus três diplomas, quase quatro. Fiz uso da doçura que me foi ensinada. Fiz uso da minha bíblia em hebraico. Fiz uso de lágrima também, porque não dá para não chorar quando se fala de uma violência sofrida quando se tem nove anos.

Com a minha calma didática expliquei que não me sentia ofendido em ser chamado de mulherzinha porque para mim "mulher" não é uma ofensa. Expliquei que cada pessoa é responsável pelo seu corpo. Expliquei que não precisava que ninguém aceitasse nada, que não estava pedindo permissão para exercer a minha liberdade.
Calei também para dar espaço ao pensamento. Ninguém ria mais.
Me pediram desculpas. Aceitei.
Ofereci água. Aceitaram.

Hoje, domingo, evangelizei.
Do meu modo, claro.

(Texto retirado do Facebook de Wigvan Pereira via Leandro Cruz Munduruku do Coletivo Por Uma Espiritualidade Libertária. Foto retirada do Flickr de Aaron Cohen - nem sei quem é o cara; achei no Google, rs)
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