QUANDO A VIDA, MESMO COM MUITO SENTIDO, PERDE UM POUCO DA GRAÇA...


Hoje recebi um telefonema dos mais "legais" que alguém poderia receber logo ao acordar: "alô? É da casa de repouso em que seu pai está internado. Gostaria de pedir que vocês viessem aqui fazer uma visita. Ele está mal, mesmo. E ele está só esperando essa visita para morrer. Obrigado..."

É: foi bem assim, mesmo, curto e grosso.

Tem gente que não sabe dar notícias.

Pior: tem gente que acha que todos os filhos com pais em asilo são desalmados e os colocaram lá para não dar trabalho. Acha que todos os que optam por essa situação desumana são uns cachorros que querem tirar o peso da responsabilidade da velhice de seus pais de cima dos ombros, mas não é. Muitas vezes temos pesos pesados demais para serem carregados, e só gostaríamos que alguém nos ajudasse a carregar.

Mas é claro que tem peso que é só seu.  Você tem que carregar, você deve com ele, e você, acima de tudo, tem que chorar pelo seu peso, pelas suas perdas e suas incapacidades.

Agradeço aos amigos, e principalmente à minha esposa, a Sandra, que sempre está ao meu lado pra me ajudar nessa caminhada, mas infelizmente esse tipo de coisa, nem todo apoio do mundo alivia.

Esse mundo, como já foi dito por milhões de pessoas em todo o globo, é um mundo-cão. E ninguém pode viver a sua vida, sentir seus sentimentos, chorar suas tristezas e encarar sua própria cara no espelho todas as manhãs dia após dia, a cara de uma pessoa incapacitada pelas dificuldades, pelo dinheiro, pelas necessidades, pelo trabalho, pela fome, pela sede, pelo vestir. Essa cara que só você sabe como é do outro lado, por dentro. Só você a pode encarar.

Nem mesmo a dona de uma casa de repouso (vulgo asilo) sabe o que se passa nas famílias de cada um dos velhos que ali estão. É claro, sei que eles não são monstros sem coração (será?), mas também sei que, por mais amor que sintam por um velho, ele é o dinheiro no fim do mês, e um dia ele parte, como já partiram centenas, e mais milhares partirão. É carne morta e em decreptude.

Mas para mim, meu pai sempre será meu pai.

Sempre será o cara que me ajudou quando precisei, que brigou comigo quando pisei na bola e que também brincou comigo sempre que ninguém mais podia brincar. Foi o cara que segurou a bronca nas minhas noites de doença, quando eu não podia nem levantar da cama por algum motivo.

Ensinou-me muitas coisas, inclusive como lidar com situações extremas. Me ensinou a ser esperto, e nunca me enganou com historinhas sobre um mundo bom e justo, mas me mostrou que viver nessa vida não seria fácil, e diferentemente do "pai" da música dos Titãs, meu pai não disse pra que eu não mentisse, e nem se esqueceu de me dizer a verdade: há momento pra tudo, e há horas em que você tem que mentir pra poder se dar bem,  pra não fazer outras pessoas sofrerem, dizia. Ele me ensinou a não confiar em ninguém, pois todos os homens são traiçoeiros. Lembro dele me dizendo "nunca confie em ninguém, nem mesmo em mim". Mais tarde descobri que nossa confiança devia estar em Deus e não nos homens, que maldito era o homem que confiava no homem. As palavras do meu pai, que já tinham sentido, tomaram mais sentido ainda quando comecei a crescer e a conhecer esse mundo maldito em que vivemos.

E hoje, depois de 30 anos e alguns meses de vida, sinto uma pressão enorme e uma vontade de cortar os pulsos. Mas não farei isso. Em primeiro lugar, sei que não é o que Deus tem pra mim. Em segundo lugar, sei que meu pai me chamaria de fraco se dissesse algo assim pra ele! A saída é continuar vivendo dentro das nossas possibilidades.

Fico triste por não poder dar ao meu pai uma cura para seus diversos problemas. Fico triste porque Deus não quis dar a ele algum tipo de cura. Mas eu sei que Deus tem seus propósitos, e que tudo acontece para o bem daqueles que amam a Deus.

E mesmo nesse lamaçal e nesse profundo poço em que me encontro, sei que nada é impossível para Deus.
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