Meu Cross-City em São Paulo - do Bairro do Limão à Cidade Tiradentes

Na última quarta-feira (01/07/09), acordei cedo. Como em todas as manhãs, tomei meu café-da-manhã, que de "café" só tem a denominação: mingau de aveia. Muitos podem achar esse um desjejum indigesto do ponto de vista do sabor. A verdade é que não gostamos de nada que nos lembre lados negativos da infância. Sendo assim, papinhas, mingaus e demais alimentos "socados" goela abaixo por nossas mães são automaticamente negados pela maioria. Mas eu aprendi que mingau de aveia faz um bem danado. Li que ele dá energia para quase metade de um dia, que demora para ser absorvido, e por isso age por mais tempo no nosso organismo. Pode ser simplesmente psicológico, mas desde que comecei a tomar mingau de aveia na minha primeira refeição (aí já se vão alguns meses) nunca mais senti indisposição durante o dia; Antes disso (a indisposição) acontecia em 7 de 7 dias, mas agora me sinto superbem. Além disso, mingau de aveia é muito gostoso...

Mas voltando à minha quarta-feira, como disse, acordei cedo e me alimentei. É o ritual com o qual começo quase todos os meus dias, algumas vezes mais cedo, outras um pouco mais tarde, mas nesse dia foi em torno das 6h45. Contudo, a grande vantagem é que eu não precisaria trabalhar. Depois de praticamente 20 dias enfiado em um projeto, depois que o meu notebook quebrou (graças a Deus hoje já está funcionando) e eu tive que recomeçar o trabalho, um atraso e um reagendamento de entrega junto ao cliente, enfim consegui terminar um bom trabalho que vai me render um bom dinheiro, um bom dinheiro para pagar contas, diga-se de passagem.

Depois do café, assisti a alguns jornais matutinos e tomei coragem. Coloquei minha camiseta, bermuda, os tênis, enchi a mochila com suprimentos de água, uma blusa (nunca se sabe se São Paulo continuará quente, fará frio, nevará ou um vulcão surgirá do meio da Avenida Paulista - lugar louco que eu adoro!), o antiácido - pro tratamento da "esofagite" -, e mais algumas tranqueiras. Passei a mão na chave, liguei a secretária eletrônica e fui até à garagem.

Lá, o carro estacionado, e também a bicicleta. Obviamente optei pela bicicleta. Além de gostar muito da bicicleta, também há de se encarar a realidade: não tenho carteira de motorista. não que eu não tenha capacidade (tá, eu não passei na primeira prova prática de direção), mas o automóvel é algo que funcionalmente não me atrai. Carros me atraem em uma pista de corrida, quando usam roupas das décadas passadas, ou até quando a gente tem que fazer as compras no fim-de-semana. Na verdade, carro hoje, pra mim, é sinônimo de dor-de-cabeça, encheção de saco, estresse. A bicicleta também pode ser um saco se você quiser, mas na maioria das vezes (comigo, todas as vezes) não há estresse com a magrela. Mesmo quando a corrente cai, ou algum outro imprevisto acontece, tudo se resolve muito rapidamente, e logo você está na estrada novamente.

Saí de casa determinado a andar muito, e andei. O desetino? A casa da minha mãe, praticamente no outro extremo da cidade de São Paulo (eu estou no Bairro do Limão), no extremo leste da selva de pedra. São mais ou menos 40 km de viagem no lombo de uma bicicleta. Muitos disseram, dizem e dirão "você é louco, cara...", mas não é a loucura que move o homem? pois bem, sai em busca da minha "loucura do dia".

O dia estava bonito. Ele mais iluminava do esquentava - mas mesmo assim me queimou pra caramba... - , e tudo parecia conspirar para uma ótima viagem. É interessante como a pé ou de bicicleta você observa locais, pessoas, comportamentos que você jamais observaria de dentro de um ônibus, andando de carro ou até mesmo numa moto. Ao passar pelas ruas da cidade, muitas das quais já visitei de carro ou ônibus, pude observar pessoas que nunca saberia que estavam ali. Pude ver a cidade amanhecer comercialmente em diversos pontos, como a Santa Ifigênia, a 25 de Março, o Largo São Bento. Andei por lugares que nunca tinha passado, como "o lado de lá" de diversas estações de Metrô do Lado Leste da Capital. Quantas vezes nós só conhecemos o "lado de cá" das coisas? Com as estações de metrô, isso acontece muito comigo. Quase nunca passo para o outro lado da estação. Mais especificamente as estações que ladeiam a Radial Leste, ou que estão próximas a ela. Conheço muitas daquelas estações desde que foram inauguradas (vi a inauguração de todas as estações a partir da Estação Carrão). Sempre trabalhei em bairros como Tatuapé, Bresser, Moóca, Ipiranga, Centro, e conhecia todas as estações próximas a estes lugares a partir de uma só face. Todavia ontem pude conhecer o outro lado da moeda.

Após passar pelo Centro e descer a Ladeira Porto Geral, que estava acordando, mas que já se tornava quase impossível de se transitar sobre rodas, com gente subindo e descendo, marreteiros vendendo soluções e diversões, pessoas com as mais diversas roupas e com os tipos mais variados de cabelos e acessórios, entrei na 25 de Março, rua que particularmente odeio. Não gosto de "muvuca", mas até que consegui passar incólume por lá. Subi o viaduto Diário Popular atrás do Palácio das Indústrias, que foi a sede da Prefeitura antes de se transferir para o antigo prédio do Banespa lá no viaduto do Chá. Segui pela Avenida Mercúrio, ainda pelas calçadas e entrei na Av. Rangel Pestana sentido Largo da Concórdia.

Ali, para evitar os ônibus pela direita, fui por ruazinhas locais até sair ao lado da estação de trem do Brás. Não tive outra saída: voltei para a Rangel Pestana, passei sobre o viaduto que vai por cima do caminho de ferro e continuei do outro lado até a Rua do Hipódromo (que, para fins de conhecimento de quem não é de São Paulo, não tem menhum hipódromo - deve ter tido, num passado muito longínquo). Ali, comecei a me embrenhar novamente por ruazinhas do Brás, Bresser, Belém. É engraçado como atrás de cada ruazinha de cada bairro conhecido se escondem comércios, fábricas, lojas e casas desconhecidas da maioria. É como se cada bairro guardasse microbairros dentro de si, cada um com suas especialidades e peculiaridades.

E dá-lhe ruas de paralelepípedo. É incrível como estes bairros mais antigos ainda tem ruas de pedra. Elas podem até ser bonitas, pitorescas e econômicas, porém são um martírio para a bunda de qualquer ciclista. depois de muito andar, passei por baixo do viaduto Bresser, desci a Visconde de Parnaíba, e segui pela Cotegipe até sair na Avenida Salim Farah Maluf, famosa dos boletins de trânsito daqui (tá sempre parada desde a Marginal até a Avenida Professor Luís Inácio de Anhaia Melo - quem nunca ouviu isso nos boletins de trânsito da CBN, rs). Atravessei a Avenida pela Celso Garcia, subi um pouco e voltei para dentro dos bairros.

Aproximando-me cada vez mais da linha de trem, que era o meu ponto de referência, juntamente com o sol e as placas que indicavam a Marginal Tietê (às vezes, andar por "ruazinhas" de bairros aqui em SP pode ser mais perigoso do que vagar a esmo no deserto: para se perder basta tentar "cortar caminho". Tente cortar caminho no Pacaembu ou na Pompeía, por exemplo...), cheguei até a estação Carrão. De lá, segui beirando a linha de trem, passei sob a linha de trem que vai para São Miguel e segui até a estação Penha. Logo cheguei à Vila Matilde, atravessei o viaduto Dona Matilde e cai na Radial Leste (Av. Conde Frontim). A partir daí fui pela famosa (pelo menos passou até em jornal de Santos, rsrsrsrs) CICLOVIA DA RADIAL: ela é boa, melhor ainda é que pouca gente se aventura a andar por ela. O ruim é um vento maldito na Radial que vem "encanado" do bairro para o Centro, fazendo com que você pedale, pedale e não saia do lugar. Porém é muito bom andar de bicicleta sem ter que se preocupar com carros na sua cola, sem motoristas engraçadinho que jogam o carro pra cima de você e ônibus que querem passar sobre sua cabeça. Gostaria que essa ciclovia cortasse a cidade. Seria uma viagem muito rápida. Pena que parece que a dita cuja vai se estender só até o Tatuapé. Não que seja muito ruim. Na vedardade, vai ser uma mão na roda tanto para os aventureiros, como para muitos trabalhadores que vão para o serviço de bicicleta a fim de economizar uma graninha pra comprar alguns ovos para a "mistura" (mais uma pros não-paulistanos: mistura, aqui, diferentemente do resto do país, é aquilo que acompanha o prato principal, e que não seja salada; bife, peixe assado, linguiça, salsicha no molho, etc. Batata-frita é um misto de mistura e petisco =P), mas ela poderia se estender até o Centro, e ligar-se a outras ciclovias. Isso seria a realização de um sonho para milhares de pessoas.

Depois de andar até Itaquera, a ciclovia infelizmente acaba. Só que aí começa uma outra viagem para mim. Estou perto do meu bairro-natal. Se passei a infância toda no Conjunto Prestes Maia, que antes pertencia ao bairro de Guaianases e hoje ao bairro de Cidade Tiradentes, passei parte da minha "primeira adolescência" em Itaquera. Aos 12 anos passei a frequentar a Igreja Metodista Wesleyana da Cohab II (José Bonifácio) Eu ia para lá na sexta-feira à noite, para a casa dos "irmãos" e ficava até domingo após o culto. Lá conheci muita gente legal, muito mala sem alça, também. O importante é que tive momentos muito bons por lá, filando bóia na casa dos outros, brincando com o pessoal, muitas brincadeiras sadias, e outras que, se reveladas na época, renderiam um belo de um "afastamento" do corpo da Igreja (é mais ou menos como uma "excomungação temporária"). Ali também conheci a primeira namorada, o primeiro "fora" e muitas coisas que a adolescência, como que por gozação, reserva pra gente. Passando de bicicleta por aquelas ruas, tudo veio à mente. Passei em frente da casa de amigos, amigos que nem moram mais ali. Passei por pessoas conhecidas, mas que não me conhecem mais, enfim, foi uma viagem, um verdadeiro túnel do tempo, tudo no lombo da magrela, pra não perder o pique.

Andando mais um pouco, cheguei à casa da minha mãe. Ah, conjunto Residencial Prestes Maia... Por mais que seja no fim do mundo de São Paulo, superafastado do Centro, longe da civilização, carecendo de muita coisa, com alto índice de violência, ainda continua sendo um lugar que me faz sentir como se estivesse em um lugar em suspensão pelo tempo. Subi as ruas, também encontrei muitas pessoas que conhecia, mas que não me reconheceram: gays que sairam do armário, garotos inconsequentes que se tornaram pais de família, moças que estão velhas, crianças crescidas, vagabundo que continuam vagabundo, enfim pude ver muito do meu passado em cada pessoa, cada esquina, cada rua percorrida.

Como bom mané que sou, fui até a casa da minha mãe e dei com a porta na cara, pois ela tinha saído. Tá, eu não avisei que ia, mas como minha mãe pôde sair de casa? Mães devem estar sempre à disposição do filho...

Decidi então ir até a Cidade Tiradentes. Uma de minhas imrças moram por lá, e pensei que seria bom dar uma chegada até lá, para ver a família dela. Fui cortando por dentro do "Parque do Rodeio", uma extensa área verde com pistas de cooper, brinquedos para as crianças e mesas, tudo bem organizado. Fiquei besta em ver como algo tinha mudado para melhor. No meu tempo isso não existia. Sorte do povo que está por lá agora. Certamente, reclamam das coisas como estão, mas mal sabem que tudo já foi puior, e que hoje é um "mar de rosas" se comparado ao passado, pelo menos no que diz respeito à infra-estrutura de lazer. andando mais um pouco e fui até a Cidade Tirandentes.

Chegando lá, percebi como o tempo passa. Minhas sobrinhas estão todas crescidas. A mais nova deve ter uns 8 anos, e a mais velha já tem até um filho! Ficamos lá, batendo um bom papo por horas, almoçamos e depois voltei pra casa. Toca mais 4 horas de volta.

Essa minha folga foi muito boa, mesmo. Foi uma verdadeira viagem, tanto no que diz respeito à disância, afinal, nada nada, rodei cerca de 40 quilômetros (somente na ida) montado em uma bicicleta, mas também no sentido de ter visto muita coisa do meu passado, ter conhecido ruas novas, lugares diferentes. Cheguei em casa cansado, com as pernas moídas, mas o sentimento de satisfação era maior do que tudo isso. Tive uma sensação de liberdade e de poder muito grande, sentimento que com certeza não teria andando de ônibus, carro ou até mesmo sobre uma moto, que é tão vista como sinônimo de liberdade. Se a moto, dizem os americanos, deixa o homem com um espírito livre, a bicicleta junta a este sentimento de liberdade a uma espécie de sentimento do poder natural. Quando se começa a andar de bicicleta, imagina-se apenas estar praticando um esporte, uma brincadeira da infância, que vai emagrecer, entrar em forma, fugir do inevitável fantasma das doenças cardíacas. Sim, pedalar pode proporcionar tudo isso. Entretanto, pedalar proporciona muito mais. É poder saber que o seu corpo, sem a ajuda de combustíveis fósseis, ou de espécie alguma, simplesmente com as leis da física, com a mecânica simples, tem um poder incrível. É sentir-se vivo, como uma criança, sem dever nada pra ninguém com o mínimo de regras possível. É só você, sua bicicleta, e o ambiente à sua volta. É a excelência do homem sobre as máquinas, resquício de uma época em que nós as controlávamos, e não o contrário.

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