Reflexões sobre a música - a burrice do maniqueísmo cristão

Uma discussão no Orkut me fez materializar alguns pensamentos.

Muitos cristãos hoje têm medo de "errar" na hora de escolher o tipo de música que se vai ouvir, poisbotaram naca beçaque se um músico não é declaradamente gospel, white metal, unblack metal, ou seja lá o que o diferencie da música "secular", esse músico não é bom para se ouvir.

Não bastasse o ser humano ter que escolher entre o estilo de música que lhe agrada, e escolher entre os melhores e piores (questão bem pessoal, mesmo), os crentes ainda têm que escolher qual música é o não "santa"!

Sim. porque o cristão, segundo as igrejas, não pode simplesmente ouvir boa música, mas tem que ouvir música "inspirada por Deus". E entenda-se por música inspirada por Deus nãoaquelaque fala de amor, perdão, etc., mas aquelaque faz parte de um esquema de enganar trouxa, que é o tal do "mercado gospel". Mas eu nem quero entrar nesse assunto hoje.

O que quero discutir aqui é o fato de as pessoas terem colocado na cabeça que a música foi feita apenas com dois propósitos: adorar a Deus ou adorar ao Diabo. Com a desculpa de que "quem não está conosco está contra nós" e "quem comigo - no caso, as igrejas evangélicas - não ajunta espalha" o meio evangélico determinou (pra não perder o costume) que somente as músicas com Jesus em suas letras - ou então com chuva, paixão, comportas, bênçãos e mais um monte de outros xavões gospélticos - podem ser ouvidas pelos membros de sua igreja.

Não vou aqui, diferentemente de muitos cristãos, usar a Bíblia para afirmar se é lícito ou não ouvir música "secular". Antes, vou fazer uma analogiazinha.

Quando Deus criou a Terra, segundo o Gênesis, ele disse que toda erva e toda fruta do campo nos serviria de comida. Ele não disse que esistiam ervas que eram "gospel" e outras seculares, mas ele nos deu uma variedade de mato, e disse "escolhe aí, meu filho, aquilo que você mais gosta". E há uma peculiaridade nisso tudo. Há ervas que são amargas, que muitos não gostam, masque outros tantos adoram. Aí vai de cada um escolher o que mais gosta. Também há ervas que são venenosas, essas nós não devemos nem comer, porque fazem mal.

Da mesma forma Deus criou a música. Ele poderia ter dito: "todos os sons que coloco hoje no mundo servirão pra vocês se divertirem, se regozijarem, amarem, mexerem o esqueleto". É óbvio que no meio dessas músicas há músicas que são ruins para uns, boas para tantos outros. Há também músicas que não prestam de jeito nenhum, porque fazem qualquer um ficar mal. Essas é bom nem chegar perto (e não é só aquela música que você chama de "secular" que se encaixa aqui,não. Tem muita música dita "gospel" que a gente não devia nem parar pra ouvir o primeiro acorde...).

Voltando a falar de mato, sabe-se que há plantas que servem como alimento, que dão vitamina, que curam. Essas plantas nos deixam fortes, com energia. Há outras plantas, porém, que servem apenas como"tira-gosto". Elas são gostosas, mas não são essenciais pra nossa vida (todo mundo vive muito bem sem orégano, por exemplo, mas tô pra conhecer outro como eu que não gosta dessa plantinha). Até são muito gostosas, e nos alegra comê-las, mas elas não curam, e nem dão força. Mas elas também são boas, porque quando ficamos alegres, nosso corpo, segundo alguns especialistas, libera substâncias que nos revigoram. Essas plantas que, a princípio não servem pra nada além de alegrar, complementam o trabalho das ervas essenciais.

Levando essa idéia pro campo das artes, com a música acontece a mesma coisa. Há músicas que são essenciais para nós. Particularmente para nós cristãos, há algo que chama-se louvor, e que não pode faltar em nossas reuniões.Não é de hoje que os adoradores gostam de cantar a Deus, exaltando-o e agradecendo. Porém, há outros tipos de música que são gostosos, também. São músicas românticas, alegres, que falam de amizade, de amor ao próximo, ou que nos despertam para as desigualdades desse mundo. Essas músicas, quando são ouvidas, não agem diretamente no nosso espírito. Porém, elas nos alegram, nos sensibilizam, nos confortam, e essas músicas, mesmo não sendo do tipo "essencial", são ótimas, pois ao tratar do nosso corpo, elas complementam o trabalho da alma.

Depois dessa longa conversa, queria terminar deixando aqui a minha opinião Existe muito mais no universo músical do que as músicas do bem (gospel) e as músicas do mal (seculares). Entre as músicas que não são cristãs, há uma gama de obras que fazem bem para o nosso coração, para o nosso entendimento, ou que simplesmente nos colocam para se mexer fisicamente, fazendo com que nosso corpo abandone o marasmo da vida cotidiana.

Se você se sente revolucionário porque ouve rock cristão, eu o desafio a ir um pouco além, e a provar "de toda erva do campo", e não só das essenciais. Vá até uma loja de CDs, ou acesse uma loja virtual de MP3, e adquira músicas não explicitamente cristãs. Deixe que o Espírito Santo mostre pra você o que é bom e o que não é. Deixe de dar ouvido aos pastores e ao legalismo e comece a ouvir Deus. Você irá se surpreender ao escutar a voz dEle numa música "secular".

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