Violência e justiça

Ontem estava andando pela Lapa (SP), ali na Rua Nossa Senhora da Lapa com a Sandra. Estávamos indo buscar nossas fotos tiradas por ocasião do nosso casamento civil. Íamos subindo a ladeira, tudo estava sossegado: a rua tinha algumas poucas pessoas, a maioria das lojas estava fechada. Somente as lojas de departamento, mercenárias e que não querem perder um segundo de dinheiro, estavam funcionando. Foi aí que vi um pivete que aparentava mais ou menos uns 8 anos descendo a rua na maior velocidade, e um rapaz, que aparentava ser chinês (ou coreano, não sei bem) vindo atrás dele na mesma velocidade. Logo, concluí que se tratava de um assalto. Tive alguns segundos para pensar "agarro, passo uma "rasteira", dou um tapa, um chute... Decidi agarrar o moleque. Parecia ser o mais sensato a fazer. Nem bem agarrei o rapazinho, todo sujo, como é de costume a esses meninos que moram na rua, o oriental chegou e foi pra cima do menino. Tudo certo, afinal, o cara tava com raiva. Tudo certo, se o japinha não tivesse uma faca na mão! Tá bom: não era uma faca que se diga "nossa, o Rambo usou uma dessas pra acabar com os vietnamitas"; era uma faca dessas de "serrinha", de cabo meio branco, meio amarelado (acho que é o que o pessoal chama de "creme"; sou ruim com cores intermediárias...), mas era uma faca, pôxa! Na hora eu soltei o menino e agarrei o rapaz que estava com a faca, e ele tentando cortar o menino. Ele ia matar o pivete! Tentamos (eu, a Sandra, e mais alguns que estávam por ali), e conseguimos desarmá-lo. Graças a Deus, evitamos que o pior acontecesse. Levaram o pivete embora e nós subimos a rua com o oriental, seu pai e mais uma pessoa que estava por lá. Aí eles contaram que aquele pivete rouba a lanchonete deles todos os dias, e que o japinha ficou revoltado e saiu correndo atrás do moleque, disposto a matá-lo. No fim, nada foi resolvido, mas eu fiquei pensando na situação. De um lado, tínhamos o pivete, que, pela impunidade, juntamente com a vida miserável que leva, não tinha medo de morrer, ou se tinha, esqueceu totalmente tal medo na hora de roubar. Ele rouba todos os dias, seja pra soviver, seja pra alimentar algum vício (que não deixa deser uma forma de sobreviver - ou seria "subviver"?). Do outro tínhamos o rapaz da lanchonete que, cansado de ser roubado todos os dias, e desacreditado da falsa segurança que o Estado promete, decidiu fazer a justiça com as próprias mãos. Nessa situação, me perguntei: "e aí, qual é o certo?" Eu devia ter deixado o chinês acabar com a vida do pivete, ou pelo menos tê-lo deixado ferido, para ver se "aprendia", ou agi certo, zelando pela vida de um trombadinha mal-agradecido que, com certeza, se tiver uma chance, me assalta também, quem sabe até para se vingar do susto que ajudei a dar nele? Eu não sei, sinceramente, como responder. Por enquanto acho que fiz o correto. Ninguém tem direito de aplicar a justiça, a não ser Deus, creio eu, mas até quando situações como essas irão continuar a acontecer? Sei que temos que educar para que as futuras gerações sejam diferentes desta, mas com a conscientização de meia-dúzia de pessoas, será impossível conseguir algo concreto. É dessa forma que vejo a civilização continuando como sempre foi: violência, miséria, justiça falha e Estado corrupto. Se alguém tiver alguma opinião que pelo menos nos faça sonhar com um futuro diferente, me conte...
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