16 março 2016

Sementes, frutos e viagens pré-noturnas


Este é o Evangelho do Reino para os muito preguiçosos para serem ortodoxos e guardarem versículos na cabeça, mas que são honestos para com a fé.

Dizem que o religioso pós-moderno, entre outras "qualidades", é um crente que deixa de acreditar naquilo que os outros querem e passa a acreditar naquilo que ele quer.

Bem, se isso é positivo ou negativo, eu não sei, eu só sei que, de certa forma, escolhi este caminho e me sinto muito bem com ele. Se Deus perdoa os tempos da ignorância (está lá na Bíblia, dá uma googlada, pfvr), então eu, como ser humano pequeno e limitado diante da magnitude do Universo, reservo-me ao direito de não saber de nada (tal qual Sócrates e Lula), crendo na absolvição pura e simples (agora, somente tal qual Lula).


Vejam só como a Bíblia é engraçada. Ela contém discrepâncias, erros, descontinuidades do ponto de vista narrativo e incongruências do ponto de vista lógico, mas eu ainda consigo enxergar nela algo que se aproveite.

Por exemplo, veja só a parábola da semeadura. Muita gente conhece esta historinha.

Veio um cara e semeou. Algumas sementes caíram no meio da estrada, e foram comidas por pássaros, ou pisadas pelas pessoas. Outras caíram num lugar com muitas pedras e quando começaram a brotar, por não haver umidade, secaram ao Sol. Algumas caíram em meio a espinhos, e acabaram sufocadas por outras ervas que cresciam no lugar. Contudo algumas caíram em terra boa, e deram muito fruto.

Como eu disse, o pós-modernismo me permite focar onde eu quiser - o modernismo já permitia isso, mas só se você fosse sacerdote, burguês, tivesse o rabo preso com alguém ou as costas quentes. Assim sendo, vamos focar na parte prática deste texto.

As duas primeiras "levas" de sementes (ou da mensagem do Evangelho) não chegaram sequer a brotar. Logo, não quero manter meu foco nelas. Seus destinos também estão muito além do plano terrestre: são roubadas pelo diabo, ou são perdidas por uma "tentação". São dois contextos muito pessoais: você precisa acreditar que existe diabo, e "tentação" é algo muito subjetivo, pois cada um sabe onde seu calo aperta.

Já a terceira e a quarta leva de sementes têm aplicações muito práticas, creio eu, e estão permeadas daquilo que quero crer ser o cerne da mensagem do Evangelho. As sementes que caíram em meio aos espinhos são as pessoas que ouvem a mensagem do Evangelho, mas acabam desistindo porque estão muito preocupadas com o próprio umbigo. Problemas do dia-a-dia, preocupações para conseguirem mais dinheiro, terem mais lazer, poder contratar uma babá para cuidar dos filhos enquanto vai a uma "manifestação", saber se poderão ir pra Disney ou não nas férias, milhares de reuniões de negócios, "muito trabalho e pouca diversão", enfim, são pessoas "ensimemsmadas", que só olham para dentro, que não olham ao redor, que esquecem que estão numa sociedade. Estas pessoas já eram, estão perdidas. Acharam que estavam fazendo a vontade de algum deus, mas estavam atendendo somente aos próprios interesses e juntando lixo em vez de juntar coisas preciosas, que duram para esta vida e além (estou assumindo que haja uma "além" - "eu quero acreditar", diria Fox Moulder).

As sementes que caíram em terra boa, como está lá escrito, "são aquelas pessoas que ouvem e guardam a mensagem no seu coração bom e obediente; e, porque são fiéis, produzem frutos".

Que bagulho de obediência e este? Obedecer a quem? Ser fiel a quê?

Como eu disse, a pós-modernidade me dá o direito de analisar a Bíblia poro conta própria (mais uma vez, a modernidade já permitia isso, mas só se você fosse um padre alemão beberrão e seus asseclas da aristocracia). Para mim, o cerne do Evangelho é o tal do Sermão da Montanha, e este sermão pra mim é um tratado universal de humildade, amor e preocupação para com o próximo. É isto que devemos seguir, é a isto que devemos ser fiéis.

Na parábola da semeadura, ao dizer que deve-se ser "bom, obediente e fiel", entendo que é muito claro e simples: preocupe-se com o próximo, cuide de quem está em situação pior, seja honesto, chore com os que choram, alegre-se com os que se alegram, pare de correr atrás de dinheiro, que isto não leva a nada se você não tiver um coração bom e voltado para a sociedade, para o coletivo.

Sim, pra mim, a comunidade cristã dos primeiros séculos era uma comunidade mais voltada para a vida em grupo, para o bem estar da coletividade, do social. Como já ficou bem evidente através da boca de muitos cristãos sensatos através dos séculos, não existia uma comunidade mais "de esquerda" na época e na região onde se assentaram as igrejas da antiguidade do que a comunidade cristã.

Por isso, se você se acha cristão, mas seu foco não está em pessoas e sim em coisas, quero dizer que você não é cristão. Você não é uma semente de terra boa. Você até acha que é cristão, mas está se sufocando com essa busca incansável de satisfazer você, você , você, você...

Ser cristão, em primeiro lugar, é olhar para fora, para o mundo ao redor, para as necessidades da coletividade e, inserindo-se nessa coletividade, sentir-se completo e satisfeito, também.

Esta mensagem é fruto de uma piração onírico-revelatória de cunho divino sofrido nos poucos minutos de embriaguez por cansaço enquanto pajeava meu filho ao colocá-lo na cama. Uma viagem que só a pós-modernidade me permite assumir sem vergonha, e sem ter a necessidade ortodoxa de ficar tentando provar que sou coerente, ou que estou de acordo com as Leis da Física.

"(Vou) ficar, com certeza, maluco-beleza..."
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