05 novembro 2015

Devaneios de um povo que aprendeu a ser superior

A polarização política é ruim para todos.

O brasileiro mediano não sabe analisar a política, e a única forma de tomar partido de algo é como se fosse torcendo por times de futebol, de forma passional e decerebrada.
Este comportamento também leva ao fenômeno de nunca admitir quando seu candidato ou partido é ruim. Isto fica evidente em um estado onde o governador mente e fecha escolas e não se ouve nem uma panelinha no alto dos prédios. Nem uma buzininha...



Estamos vivendo um momento muito triste em São Paulo. Não é a primeira vez, mas gostaria que fosse a última, que passamos por um encolhimento no número de vagas escolares no estado. Crianças e jovens – e também adultos do EJA, Ensino de Jovens e Adultos – estão sendo remanejados para longe de suas casas e serão obrigados a estudar em classes superlotadas que tiram de qualquer um a vontade, já muito escassa muitas vezes – por motivos óbvios: metodologia "super-atrativa", cansaço por ter que trabalhar e estudar, por exemplo –, de estudar.

O povo, anestesiado pela mídia que bate sem dó nem piedade no PT (não que não fosse justo, mas as revistas e jornais deveriam admitir seu posicionamento político em vez de propagar a falácia da "imparcialidade da imprensa"), não percebe que temos um problema no nosso quintal, que é a administração do PSDB. É a crise hídrica, a violência da polícia e agora o agravamento da crise na educação – sem falar de saúde, transportes, etc. Logo, mesmo nas redes sociais, o número de posts e memes que criticam Geraldo Alckmin é baixo perto da enxurrada de conteúdo anti-Lula, Anti-Dilma e Anti-PT como um todo que se recebe a cada minuto na timeline (pelo menos na minha timeline).

Ultimamente até que tem aumentado o número de memes sobre o fechamento de escolas. Quando leio estes posts reparo que, nos comentários, é difícil sair da boca dos Anti-PT uma frase que diga "Alckmin safado", ou "o PSDB só tem ladrão". O que se vê são frases generalizadoras do tipo "estamos ferrados com os 'políticos' que temos" ou "desse jeito, o Brasil não aguenta". É difícil dar nome aos bois.



É muito difícil para as pessoas que enxergam a política como futebol, e torcem fanáticas pelos seus partidos, admitirem que político, até que se prove o contrário, é tudo ruim e farinha do mesmo saco. Ou melhor, é difícil para algumas pessoas admitirem que fizeram uma escolha tão ruim quanto a dos petistas ao votarem em Geraldo Alckmin. e nessa hora o orgulho paulista fala mais alto, e não nos deixa admitir que somos tão ou mais "burros" que o o resto do Brasil. Aliás, é difícil para o paulista classe-média, branco, morando no – ou oriundo do – interior (ou o descendente de italianos e japoneses da capital) admitir que TAMBÉM SOMOS BRASILEIROS, que o fato de ele "não ter sotaque" (!) e ser tímido, retraído – em contraponto aos nordestinos, extrovertidos e alegres na sua maioria –, não faz ele melhor do que ninguém.

E veja bem: não quero dizer que o petista não faça o mesmo, ou que não haja pessoas de outras partes do Brasil que não façam o mesmo. Hoje mesmo comentei um vídeo sobre viagens, convidando uma pessoa para conhecer São Paulo, e alguém já disse: "não vá para SP, venha pra Recife, porque nossas praias são melhores e nossa ciclovia é mais segura". Ou seja, bairrismo tem em todo canto. Mesquinhez é mato. Mas eu falo da minha gente, eu falo do que eu conheço, e é melhor do que falar dos outros, acredito. Também não quero contribuir para a polarização burra de pessoas que amam PT e odeiam PSDB e vice-versa. Só observo que, parece-me, existam mais petistas ou aliados do PT opositores do governo Dilma do que psdbistas e aliados do PSDB opositores, ou que criticam Geraldo Alckmin. Pode ser uma percepção errada? Pode ser, mas é isso o que consigo ver aqui da minha "janela". E olha que eu converso com gente bem antagônica entre si. Tento me cercar de uma rede de contatos o mais heterogênea possível em todos os sentidos. Consigo dialogar com as mais diferentes pessoas com as mais distintas posições políticas e ideológicas, e o que vejo é isso: pessoas que se identificam com a esquerda ou com o socialismo admitindo mais os erros do PT do que neoliberalecos e "direiteiros" assumindo as merdas de seus representantes.

Um bom exemplo é Eduardo Cunha. Por mais cagadas que o cara faça, o máximo que as pessoas que antes gritavam "SOMOS MILHÕES DE CUNHA" dizem é "mas ele só foi acusado, não condenado". Estas pessoas têm uma dificuldade tremenda de encarar a realidade. Embora o mesmo aconteça entre as "maria-Lula": é difícil admitir que o Lula esteja envolvido com escândalos. Todavia creio que os petistas, neste quesito, estão em vantagem: nenhum documento na Suíça foi usado para acusar Lula, por exemplo. Não que a Suíça seja a última palavra em crédito nas denúncias, mas ter uma instituição que não possa ser comprada por um político denunciando-o é algo que deve pesar na hora de julgar alguém.

Contudo, o que posso dizer com base no que vejo e conheço do povo de São Paulo (do qual faço parte) é isto: somos orgulhosos e não conseguimos admitir quando estamos errados. Acostumamo-nos tanto com a mídia dizendo o quanto somos bons, sérios, íntegros (rárárárá) e tabalhadores que esquecemos que não somos uma colméia, que pensamos individualmente e que nem todo mundo é bom e nem todo mundo é mau em uma comunidade.

Dizem que admitir é o primeiro passo em direção à cura. São Paulo só será algo além do seu sonho de grandeza e da mentira que nos contam desde o berço quando admitirmos que somos pessoas como as demais. Não melhores, nem piores, apenas normais, que erram e acertam, na medida das pessoas normais.
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