29 abril 2015

Sobre moedas e a diversidade


“César cunhou moedas todas idênticas. Mas nosso Deus é um Deus da diversidade. Nosso Deus é um artista. O reino de Deus é um lugar onde as pessoas são únicas, exatamente como nossas impressões digitais. Assim, por exemplo, você olha para a moeda e o "símbolo de César" controla toda a vida, porque tudo na vida é mediado por este símbolo. Mas o reino de Deus que Jesus advogou era muito diferente. Quando Jesus chamou as pessoas, cada um respondeu de uma maneira diferente, dependendo de sua vocação e missão no mundo. Alguns venderam tudo e o seguiram; outros agiram de outras formas. Isso mostra que há espaço para a diversidade no reino em que ele defendeu. Jesus nos deixou pouquíssimas respostas, mas fez muitas, muitíssimas perguntas. Questões que ajudaram pessoas a descobrir seu próprio sentido de direção, sentido de vida e de identidade em Deus. Algumas vezes, o que essas pessoas descobriram as colocou em conflito tanto com o sistema político quanto religioso da Palestrina do primeiro século." - Shane Claiborne apud Matthew Fox, Occupy Spirituality.

A inércia dos bons e a perversidade dos maus


Ontem estava assistindo a um programa de TV que discutia o assunto "redução da maioridade penal". Era em um daqueles canais UHF, que ninguém assiste (infelizmente, bons assuntos quase sempre estão nos canais menos vistos).

Uma jornalista trouxe um dado interessante: no final de 2014, foi feito um referendo no Uruguai, juntamente com a eleição para presidente, sobre a diminuição da maioridade penal. Um detalhe é que o assunto começou a ser discutido no país em 2011 e, naquela época, mais de 70% da população se mostrava a favor de que jovens com 16 anos ou mais fossem julgados e encarcerados como adultos.

Desde então, setores da sociedade, jornais, empresas e indivíduos contra a redução passaram a fazer uma propaganda forte, com passeatas, programas de rádio e TV, matérias em jornais etc., tentando mostrar para a população porque a redução da maioridade penal era ruim e ineficaz.


O resultado é que, 3 anos depois, no final de 2014, pouco mais de 53% dos uruguaios votaram CONTRA a redução da maioridade penal. Isto deveu-se, ao que tudo indica, à manifestação massiva daqueles que eram contra a redução a fim de esclarecer a população, trazendo dados e chamando à sensatez a maioria esmagadora que antes era a favor da redução.

No Brasil, aqueles que estão encabeçando a mudança da lei para que adolescentes com 16 anos possam ser condenados como adultos por seus crimes são pessoas ligadas às bancadas mais conservadoras do país - conhecidos como "BBB": Bíblia, Bala e Boi, ou as bancadas Evangélica, Militarista e Ruralista. Estas pessoas deixaram a tempos de usar dados e fatos para apoiarem suas ideias — se é que um dia usaram. Antes, valem-se de um discurso baseado na emoção, e na falsa sensação de que os crimes de jovens infratores piorou, quando na verdade, o que parece ter acontecido é que a nossa percepção sobre a violência aumentou, devido à enxurrada de notícias que chega até nós através dos mais diversos meios.

Acho que acabei me afastando um pouco do meu objetivo. Não que tenha sido uma viagem perdida, mas deixa eu voltar.

Observem bem: o placar no Uruguai parece ter sido revertido por causa da insistência dos sensatos (sim: já assumi que ser a favor da diminuição é uma insensatez) em mudar a opinião daqueles que talvez, ao não se ter muita ideia do que se tratava, estava agindo com a maioria, talvez por impulso ou medo. Eu não sou um cara muito lido. Aliás, no mundo de blogs, jornais e escritores, sou menos que um átomo na imensidão do Universo. Contudo, me proponho — sem saber se conseguirei — escrever pelo menos algumas poucas linhas sobre por que não apoiar a redução da maioridade penal.

Se, na minha insignificância, eu conseguir no mínimo fazer com que uma pessoa a favor da redução fique em dúvida e vá se informar mais sobre o assunto, já estarei me sentindo vitorioso.

28 abril 2015

Toma que o filho é teu - ou eu boto ele na cadeia


Antes sempre se ouvia nos jornais, ou por aí, pessoas dizendo: "estamos perdendo nossos filhos ou nossas crianças para as drogas, para o crime", etc.

Hoje em dia já não se ouve mais isto. O que se ouve é "temos que baixar a idade de condenação para colocar esses vagabundos na cadeia".


O que será que mudou? Será que estas "crianças" e "filhos" que antes eram nossos, agora não são mais? Será que agora justifica mandarmos "nossos filhos" para a cadeia, e quem sabe, num futuro próximo, para morrerem em cadeiras elétricas, fuzilamentos e câmaras de gás?

Ou será que, na verdade, essas crianças e filhos, que antes a sociedade chamava de "nossos", e que os apresentadores de jornal diziam que precisávamos tirá-los das ruas, dar educação, nunca foram mesmo "nossos filhos", mas sempre foram filhos do outro: da favela, dos pretos, das empregadas, dos trabalhadores, dos mendigos?

Parece que hoje a sociedade, cada vez mais embrutecida, não se importa de renegar estes filhos, e se sente-se à vontade para condená-los, sem o sentimento de que tais menores fazem parte da sua sociedade, da mesma família humana que nós, mas são bichos, são gente que nasceu assim, por aí, da "parideira", da chocadeira, como se dizia antigamente, e que não são mais preocupação nossa.