29 agosto 2014

Sou o mesmo, só que agora mais ligado


Achei que nunca precisasse escrever um texto sobre o meu posicionamento como cristão.

Durante boa parte da minha vida como cristão evangélico, sempre estive na minha zona de conforto religiosa. Ía aos cultos, dava meu dízimo, minhas ofertas, tocava nas reuniões, etc. Mesmo pertencendo a uma igreja dita underground (que toca rock pesado, a galera usa piercing, tatuagem, cabelo comprido, etc.), nunca precisei me preocupar muito em tomar um posicionamento em relação ao tipo de cristianismo que tinha, afinal, a igreja, mesmo sendo toda de rockeiros, continuava sendo a mesma coisa: era uma igreja evangélica, só que, em vez de usarem terno e gravata, os membros usavam roupas pretas e brinco no nariz.


Depois que me desliguei desta igreja underground, tive mais tempo de ler a Bíblia – deixando claro aqui que não lia muito não é porque não deixavam, mas é porque o número de compromissos dentro da própria igreja às vezes não deixava –, de ler outros pastores e enxergar o cristianismo de uma maneira diferente. Me permiti sair de dentro daquela concepção que tinha desde sempre sobre o cristianismo e arriscar mais na minha fé.

Passei a conhecer outras denominações, outras religiões, outras filosofias, e isso me fez enxergar um mundo muito maior. Comecei a questionar muitas verdades absolutas, muito daquilo que eu apresentava como verdade, mas que não fazia muito sentido nem mesmo dentro do contexto do cristianismo. Coisas como ira divina, condenação, pecado, homossexualidade e outras questões passaram a ser de menor importância dentro do meu cristianismo. Fatos bíblicos sem pé nem cabeça começaram a ter mais um valor alegórico para mim do que histórico propriamente dito. Criação do homem, dilúvio, êxodo, muitos milagres do Velho Testamento passaram a soar mais como ilustrações de comportamentos e situações do que como verdades.

Isto acabou me tornando uma pouco menos exigente comigo mesmo em relação a muitas coisas. A Bíblia deixou de ser um livro de regras e conduta, ou a expressão exata da vontade de Deus, A Sua Palavra, e passou a ser um relato de alguns povos sobre a forma como eles compreendiam a ideia e a imagem de "Deus" passada a eles por seus antepassados. Isso me ajudou a entender que eu também tenho uma forma de ver e compreender Deus, que as pessoas do meu tempo e a minha sociedade têm uma visão única de Cristo, Deus, pecado e todas estas questões que já nos acompanham há tantos milênios.

E a razão deste texto? A razão é: a verdade não foi feita para ser escondida. E eu não estou aqui falando da verdade absoluta, ou da salvação, ou de Jesus Cristo. Estou falando da minha verdade, daquilo que penso e como ajo. Muitas vezes eu vou tocar na sua igreja, vou participar da Ceia do Senhor com você, vou na sua casa e no seu culto e você acha que eu ainda sou aquele cristão normal.

De certa forma, eu ainda sou aquele cristão: eu amo a Deus sobre todas as coisas e amo ao próximo como a mim mesmo. eu ainda honro meus pais e minha família, ainda dou valor à amizade. Eu ainda oro pedindo alívio para minha alma, para ter forças para aguentar a correria do dia a dia, para que Deus faça a sua vontade. Eu ainda faço tudo isso. Contudo, pode ser que o meu comportamento como cristão tenha mudado, e isso tenha ofendido - ou escandalizado - você.

Se você está escandalizado com as cervejas que tomo – sim, eu bebo, e não é só dentro de casa: bebo quando tenho vontade -, com os meus palavrões - sim, eu falo palavrão, e às vezes falo sem o menor sentido, só porque quero soar engraçado (palavrões fazem rir, acredite) –, com minhas piadas com algumas passagens bíblicas, peço que você me perdoe. Entretanto, além de pedir perdão, peço que ore. Ore pela minha vida, pela minha família, mas, principalmente, ore para que Deus possa mostrar pra você o amor nisso tudo, e possa mostrar pra você que nem todo mundo foi chamado, ou está disposto, a viver o cristianismo da mesma forma que você, que o cristianismo que você vive hoje pode não ter sido o mesmo cristianismo que foi praticado pelos primeiros cristãos, e que o cristianismo nunca foi uma cultura homogênea, mas sempre teve muitas formas de ser praticado, até mesmo porque Jesus nunca deixou nada escrito sobre como ser cristão, sobre como se comportar e como viver. O que temos hoje são relatos de pessoas que andaram com gente que conheceu ele, como as comunidades dos primeiros séculos entendiam o que havia acontecido nos tempos de Jesus através dos relatos de gente que conhecia gente que tinha andado com Jesus.

Muita água ainda vai rolar por baixo dessa ponte chamada religião. Eu acho que um dia estaremos todos sentados juntos, rindo imensamente de nossa ignorância, e de tudo aquilo que acreditávams ser verdade e que não passava de uma sombra do que estaria por vir.

25 agosto 2014

Que merda eu fiz?

Dizer que sua família não foi perseguida durante a ditadura porque não fazia merda é, de duas, uma: ou duma ingenuidade muito grande ou duma filhadaputice tremenda.

E eu nem quero entrar no mérito do que o Roger do Ultraje a Rigor falou: ele e o Marcelo Rubens Paiva são pessoas públicas, e fica muito mais fácil julgar suas famílias, cujos atos estão aí registrados em jornais pra quem quiser ler.

Me refiro a gente comum que comprou este discurso e o está reproduzindo a torto e a direito. Vi muita gente que tá pegando o bonde do conservadorismo, e jogando merda na cara de todo mundo, gritando pra todo canto que quem teve complicações com a polícia na época da ditadura é porque estava fazendo coisa errada. Isto é de uma falta de senso crítico para com o próprio discurso que chega a ser incrível como alguém pode simplesmente vomitar o discurso do Roger em cima de seus amigos, conhecidos, networkers, familiares sem sequer pensar se estão ou não magoando alguém que não estivesse fazendo "merda", mas que tenha sido perseguido e torturado simplesmente porque não aceitou viver se escondendo ou agindo como uma vaquinha de presépio, como se nada tiviesse acontecido.


Vou jogar meu voto no lixo

Já decidi: vou votar 45. Vou jogar meu voto no lixo.

Já ía jogar de qualquer forma, pois não acredito mais em nenhum político que hoje está, ou almejam estar, no executivo.

Porém, vou votar no PSDB e quero que o PSDB ganhe. Quero ouvir, daqui um ano, o mesmo blá, blá, blá de gente que é contra o PT, do que desta vez contra o PSDB.

Quero ver estas mesmas pessoas daqui um ano, ou quatro anos, reclamando que tudo é culpa dos tucanos; a mídia metendo o pau neles, os coxinhas reclamando que não tem segurança, que tem muito viciado nas ruas, e que o Governador nem o Presidente fazem nada.

Quero ver os médicos reclamando que o Governo não lhes dá condições de trabalho. Quero ver os hospitais com filas intermináveis, pessoas jogadas em macas e pelo chão dos corredores dos pronto-socorros.

Anseio pelos morros transbordando de traficante, e a polícia invadindo, mas para cobrar o "arrego", sem nada fazer, invadindo casa de gente inocente, e todo mundo reclamando que a culpa é do PSDB.

E haverá pessoas pedindo pela ditadura, pessoas desempregadas, pessoas passando fome, e pessoas morrendo sem ter onde morar.

(Aliás, isso é tudo o que vejo e escuto desde que me entendo por gente.)

Quem sabe aí as pessoas comecem a perceber que o problema não está no PT, nem no PSDB, nem em partido algum. Que a culpa não é da nossa Constituição nem do Código Penal.

Pode ser que assim as pessoas vejam que o problema está no coração de cada um, e que a culpa é de todos nós, que matamos para ter aquilo que não precisamos, que queremos comprar, comprar, comprar à custa do sangue de muitos.

Talvez aí compreendamos que a culpa é das empresas, doa bancos e de nós, e que estamos inseridos num ciclo vicioso, e que alimentamos e somos alimentados por ele. E que nada vai mudar enquanto você e eu não mudarmos...

(A foto não tem nada a ver com o texto. É só pra não ficar sem nada, mesmo, rs...)