06 junho 2012

Eu me amo

"(...) Amar seu cão é fácil mesmo,  e quando se compara a algumas pessoas, isso se torna ainda mas fácil. Afinal, seu cão come quando você dá comida, ele fica bonito quando você o deixa bonito, você brinca com ele quando quer. Mas se você o deixar sujo, com fome, e abandonado ele simplesmente não faz nada.
Mas com o ser humano é diferente, ele responde, ele tem expectativas, e as vezes cobra você. (...)"
(Comunidade Remanescentes)

Faz muito tempo que não apareço aqui. Acho que vai pra mais de um ano, ou quase um ano. Enfim, faz tempo pra diacho. Trabalho, filho novo (que hoje completa 1 ano - PARABÉNS!), muita coisa acontecendo, e a gente fica meio sem tempo pra pensar.

Estava lendo o site da Comunidade Remanescentes, já citada no trecho acima, e estive pensando em como o ser humano é egoísta até na hora de fazer o bem.


O texto do Carlos fala sobre como a gente, sempre escolhendo o mais fácil, acaba se dedicando a um relacionamento mais cômodo que, no caso do texto, é gostar de animais a gostar de gente.
Nós gostamos de "bichinhos", pois estes são submissos, obedientes. São tratados como objetos animados, jogos de carne e osso. O ser humano em plena consciência, em contrapartida, não aceita ser tratado assim. Ele exige, ele manda, ele obedece quando quer, ou quando tem algum interesse. Aliás, temos interesses que nós nem conseguimos imaginar.

Usei animaizinhos, mas o exemplo poderia ser objetos, também. O seu "gadget" o obedece. Seu computador não deixa você na mão, e se deixar, você simplesmente o "formata" . Seres humanos são informatáveis. Eles vão dar pau, vão ferrar com suas coisas bem na hora em que você mais precisar deles, e não vão se recuperar.

E quem, ou o que, é mais fácil gostar? De um animal que está totalmente à nossa mercê, totalmente dependente dos nossos cuidados, ou gostar de um ser que pode compreender aquilo que você diz de mil formas diferentes, e que pode interpretar você mal, achar que um prato de comida esconde milhões de ideologias e motivos e não somente quer dizer que você está estendendo a mão pra ele? É mais fácil confiar no seu brinquedinho eletrônico que só faz o que está programado, ou em um ser tão imprevisível quanto a chuva na cidade de São Paulo?

Eu acho óbvio escolher de que gostar de animais ou objetos é bem mais cômodo. Não é preciso nem expor os motivos para isto.

A grande questão disso tudo é: todos estão dispostos a ser amados, mas muito poucos estão a fim de amar. Assim, fica mais fácil agradar um cão que sempre vai lamber suas feridas não importando quantas vezes você bateu nele a ajudar seu pai que pode proibi-lo de fazer o que você quer, ou seu filho teimoso, ou até mesmo seu(ua) companheiro(a) que larga a roupa suja dentro do banheiro, a calcinha pendurada no registro do chuveiro, ou que não sabe se comportar em público. É mais fácil gastar dinheiro com a nova versão do seu gadget favorito do que dar dinheiro pra um cara na rua que vai gastar o dinheiro com pinga em vez de comprar comida ou leite para os filhos. E tudo por quê? Porque este ser humano não atende às SUAS expectativas. Ele não está a fim de fazer a sua vontade, assim como você também não está a fim de satisfazer a vontade de ninguém se não a sua.

Tudo resume-se a isto: egoísmo. Enquanto o ser humano não estiver um pouquinho interessado em abrir mão daquilo que "acha" estar certo para ajudar o próximo, continuaremos sendo estes seres desprezíveis que sempre fomos. Aliás, nem assim deixaríamos de ser desprezíveis, mas tornaríamos a vida mais fácil.

Qual é o problema do tiozinho que pede dinheiro pra comida ou condução mas gasta na cachaça? Você pode achar que beber é errado, mas naquele momento o que seu corpo precisa é satisfazer um vício. Quantas vezes você satisfaz um vício no seu dia-a-dia, mas não deixa de se alimentar por causa disso? Você é melhor do que o cara só porque tem dinheiro pra gastar com vício sem pedir pra ninguém? Imagine-se no lugar desta pessoa. E se você não conseguisse suprir seu vício, e aquilo o jogasse numa depressão e o mandasse pra uma beira de ponte pra se suicidar? Quem sabe o momento certo de dar lição de moral não seja ali, na hora que essa pessoa precisa suprir uma necessidade física. Talvez num outro momento ela compreenda que deva deixar alguns vícios para correr atrás de uma melhora, mas agora ela só precisa de um conforto momentâneo (que pode se transformar em um conforto duradouro, e até em amizade). Mas tudo o que você quer é satisfazer o seu ego e ver aquele pobre miserável fazer a sua vontade, do jeito que você aprendeu e quer.

Não quero dar lição de moral, nem nada. É só uma reflexão. Eu também sou egoísta. Eu também quero satisfazer minhas vontades. Eu quero me dar bem, e quero que o meu ego seja massageado. Eu sou um ser humano. Só queria que da próxima vez que você dissesse que ama mais isso ou aquilo do que gente, do que seu irmão, sua mãe ou seu vizinho, bote a mão na consciência, abra os olhos e enxergue que você pode estar sendo tão egoísta quanto qualquer ser humano, que o seu desejo de ajudar e amar os animais ou a natureza não passa de preguiça e egoísmo, ou que você esconde seu egoísmo atrás da tentativar de ser coll, hipster, nerd ou qualquer outra merda. Preguiça para enfrentar os desejos e gostos do próximo, o diferente, e egoísmo por não aceitar que outras pessoas também tem gostos e vontades, e que elas podem não retribuir seu favor, ou que retribuirão, mas de uma forma que você pode não gostar.
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