28 maio 2010

São Paulo e o relevo – os desafios da bicicleta como meio de transporte (ou “Por que Copenhague me deixa angustiado”)

Leio diversos sites sobre ciclismo, cicloativismo, transporte alternativo, etc. Gosto de pedalar, e gosto de ler sobre pedalar. Gosto de saber o que estão fazendo em prol da mobilidade alternativa. Enfim, procuro ser um cara que tenta melhorar o dia-a-dia aqui na cidade. Gosto de São Paulo e, acima de tudo, acho que todo mundo tem o direito de viver bem onde nasceu, independentemente de onde seja.
Nestes sites e blogs sobre cicloativismo, sempre encontramos boas dicas de como andar nas ruas dos grandes centros urbanos de bicicleta, reflexões sobre a situação das cidades, protestos, etc. Há também exemplos de outras cidades do mundo que se deram em com as bikes. Temos exemplos em quase todos os continentes, inclusive aqui na América do Sul, o que nos faz enxergar o ciclismo como opção de transporte algo possível até mesmo aqui pro lado debaixo da linha do Equador.
Contudo, são entre estes exemplos que residem tanto a minha alegria como a minha angústia. Por que angúsita? Porque dentre os exemplos comumente citados nesses blogs, está a cidade de Copenhague.
Se você não sabe o que é Copenhague, de uma lida aqui.
Se você já sabe onde é, como é e porque Copenhague é o que é, então vai entender o que estou falando. E olha que não quero entrar nos fatores econômicos, sociais e culturais da capital da Dinamarca. Estou apenas falando de relevo. Todas as vezes que vejo aquele povo andando de bicicleta nas fotos das ruas de Copenhague, imagino: “nossa, como elas são felizes em poder ir ao trabalho em um local plano e frio, e eles não chegam fedendo e grudando no escritório”.
São Paulo é um desafio de todos os pontos de vista. Além de ter um dos piores trânsitos do mundo e uma adminiastração pública de fazer inveja a qualquer ditadura africana, conta com um relevo que não é assim uma facilidade de se locomover.
Essa é toda a minha angústia.
Morando em São paulo, principalmente em bairros como Santana ou Perdizes, por exemplo, é impossível sair de casa (ou voltar pra ela) sem chegar todo fedido e molhado de suor. Moro no alto de uma ladeira, e todas as vezes que volto pra casa, no Bairro do Limão, gostaria que minha bicicleta fosse dobrável: colocaria ela na traseira de um táxi e subiria até em casa.
Agora, por que eu fico angustiado com essa situação? Porque eu até que gostaria de ir para o trabalho pedalando, e aposto que muita gente gostaria, mas se não bastasse ter que enfrentar o trânsito, a falta de lugares para pedalar, lugares para estacionar e uma série de outras deficiências, o paulistano ainda tem que se preocupar com o relevo de sua terra.
E o qual é o intuito de se escrever um texto desses? Eu não sei, na verdade. Mas, quem sabe, alguém passe por aqui e leia o texto, e comece a pensar que não adianta incentivar o uso de bicicletas. Também é preciso incentivar o transporte consciente onde não é possível andar de bicicleta por motivos naturais (como as ladeiras da minha cidade).

27 maio 2010



A menina que não faz idéia do quanto é bonita.

O mendigo de capa de chuva amarela e chapéu de palha, atravessando a rua na frente do ônibus que vai para o centro da cidade.

O vento na saia quando o trem do metrô se aproxima.

A risada do grupo de mulheres na Avenida Paulista que voltam juntas do trabalho.

A trilha sonora particular do rapaz usando fones de ouvido.

A senhora gorda que se apóia na janela do ônibus segurando três sacolas.

O cheiro de frango assado da padaria.

O céu azul no Parque Ibirapuera.

Os filmes italianos em preto e branco.

O rock’n’roll.

A calçada irregular e os pedaços de mato sem nome que nascem em cada rachadura da periferia.

A Pinacoteca.

O colorido dos grafiteiros.

A pressa.

O casal gay de mãos dadas no Belas-Artes.

O senhor de idade que sai pra balada todo fim de semana.

A fumaça dos cigarros.

As buzinas.

O bêbado xingando o companheiro na porta do boteco.

O chão do bar grudento de cerveja.

Os sonhos da criança de rua que pede no farol.

O motoboy que quebra o retrovisor do carro com um pontapé.

As obras daquele prometido metrô.

As fotos.

O homem que joga o papel de bala pela janela do carro.

O MAM.

A chuva fininha que arrepia os pelinhos da nuca.

O beijo do casal antes dela entrar em casa.

O yakissoba por 5 reais da Praça da Liberdade.

O barulho do salto alto no asfalto no beco.

A favela.

A Oscar Freire.

Os sacos de lixo brilhantes.

O ator que declama poesias no SESC.

Os cafés.

Os Hare - Krishna.

A maleta do executivo.

Os cabelos azuis e as luvas listradas de preto e branco das adolescentes no shopping.

Os livros e os pufes coloridos das livrarias.

A solidão de cada um na cidade cinza.

O cinza.

São Paulo.

Eu.



Originalmente publicado em http://mariportela.tumblr.com/

24 maio 2010

Carros demais

Sei que corro o risco de ser processado por uso indevido de material protegido por direitos autorais, e sei que o veículo que o publica pouco se importa com a função social que lhe cabe, senão o lucro.

Mas vou reproduzir aqui, na íntegra, o texto de Ruy de Castro que saiu na Folha de S. Paulo de hoje.

"RUY CASTRO

Carros demais

RIO DE JANEIRO - Há medidas ousadas no ar. No Rio, o prefeito Eduardo Paes quer fechar ao trânsito a avenida Rio Branco e transformá-la num boulevard para pedestres. Em São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab quer pôr abaixo o Minhocão e revitalizar a enorme área degradada pelo viaduto.
As propostas alvejam o pior inimigo do homem e das cidades modernas: o carro. A ideia é tirar o maior número de veículos das ruas, deixando-as para o cidadão e para os veículos que precisam circular, como táxis, ônibus, ambulâncias e caminhões de serviço. Supõe-se que, para complementar as medidas, os prefeitos criarão faixas exclusivas, abrirão mergulhões e incrementarão o transporte coletivo.
Nos dois casos, trata-se de reduzir a hostilidade das cidades e devolvê-las a um tempo em que eram mais amenas e humanas. A avenida Rio Branco, por exemplo, quando inaugurada -em 1904, chamada avenida Central-, nasceu como um boulevard. Em suas calçadas povoadas por cafés (dos quais o Nice era apenas o mais famoso), fechavam-se negócios, empresas mudavam de mãos, tramavam-se golpes de Estado -enfim, decidiam-se os destinos do Brasil. Enquanto isso, na mesa ao lado, alguém vendia um samba ou discutia futebol. A vida corria em torno.

Hoje essas decisões são tomadas nas catacumbas de Brasília, sem conexão com a vida real. Uma delas, a de entupir o Brasil de carros, com o crédito a perder de vista, pouco ligando para o fato de que eles estão tornando impraticáveis as cidades mais amorosas. Nas últimas semanas, estive em Joinville, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte e Ouro Preto. Em todas, a mesma queixa: carros demais.
Sei bem que tirar os carros da rua lesa os direitos individuais de quem pensa que não consegue viver sem eles. Mas os nossos, dos pobres citadinos acuados, vêm sendo lesados há muito mais tempo."

(Originalmente publicado na Folha de S. Paulo, caderno "Opinião", de segunda-feira, 24 de maio de 2010)

04 maio 2010

Novos velhos problemas

Old-Young-Hands_big

Ao ler as revistas Veja Online, pude constatar novamente como o descaso de certa geração reflete na vida de gerações futuras.

Muitas das matérias de 30 ou 40 anos atrás alertam para os problemas que vivemos hoje. Por que nossos pais e avós não fizeram nada para impedir as catástrofes? Por que não tomaram medidas para suavizar os problemas das grandes cidades? Será que não nos amavam o bastante?

Além de questionar aos pais e aos avós das gerações passadas, também indaguei a mim mesmo e à nossa geração. Por que não fazemos nada para reverter as catástrofes? Por que não tomamos medidas para suavizar, ou resolver, os problemas nas grandes cidades? Será que não amamos o bastante nossos filhos e netos?

Direito de ir e vir… por onde eu quiser

Rainy Streets

Acabei de ler um artigo do site Copenhagenize.com (Is Urban Mobility a Human Right? – Mobilidade urbana é um direito humano?) e comecei a pensar em certos aspectos do ser humano e da vida, principalmente no que diz respeito ao trânsito e á mobilidade nas grandes cidades.

Hoje, mais do que nunca, os meios de transporte motorizados tem desempenhado um papel muito importante em nossa sociedade. Utilizamos veículos para nos locomover para qualquer lugar, a qualquer hora em em qualquer distância. Não importa se é do outro lado do país ou na esquina de casa, o carro (e a moto, o ônibus, etc.) está sempre nos levando. Parece mesmo é que nascemos ligados a estas máquinas. E é aí que quero chegar.

Cada vez mais veículos tomam as ruas da cidade, e cada vez mais perdemos a noção de que o carro é uma criação nossa. Cada dia que passa, arimos cada vez mais concessões para os automóveis nas ruas das grandes e pequenas cidades. Nessa nova conjuntura, esquecemos como caminhar. Não nos importamos mais de ir de um ponto a outro apenas usando nossa força, nossas pernas, a energia acumulada em nosso corpo sedentário. Além disso estamos, aos poucos, tirando de nós mesmos o direito de caminhar, andar pelas ruas, avenidas, parques, etc.

Os caminhos, que antes eram espaços destinados a todos, agora são locais exclusivos para carros. Os motoristas, que antes necessitavam de habilitação para andar com seus carros entre as pessoas, agora tomam conta das ruas, e o os pedestres é que pedem licença para transitar entre os veículos, para atravessar suas ruas, para, enfim, poderem usufruir do seu direito de ir e vir.

É claro que não quero aqui dizer que temos que voltar aos anos 20 ou 30, mas devemos encontrar um equilíbrio entre os pedrestres. Se continuar como está, a situação ficará cada vez mais insustentável. Temos que pensar as cidades de modo a acomodar, de forma organizada, tanto carros como pedestres, dando prioridade, talvez, àquilo que é mais comum a todos os seres humanos.

Afinal de contas, ninguém aqui nasceu com um motor, ou com uma roda nos pés, porém todos nós viemos a este mundo preparados para caminhar, e se não podemos mais fazer isso sem ter que nos preocupar com placas, faixas, acidentes, mortes, etc., algo está muito errado.

é possível viver em meio a Sociedade sem depender do GOVERNO?!

Na teoria, sim, seria possível que uma sociedade vivesse sem Governo, sem autoridades que comandem e determinem o que cada ser humano deveria fazer. Porém, esse tipo de organização só poderia existir se houvesse uma colaboração de todos dentro de tal sociedade, gerando respeito mútuo aos direitos e deveres do próximo. É por isso que acredito que uma sociedade sem Governo é impossível de se conseguir na prática, pois o ser humano é destrutivo e sempre busca o interesse próprio (eu inclusive, na maioria das vezes). Esse anarquismo total (fim total de Governos), do ponto de vista do cristianismo, só poderia ser conseguido se cada ser humano conseguisse seguir o que Cristo disse, e o que ecoou no coração de muitos profetas das demais religiões e credos, inclusive (por incrível que possa parecer para muitos) do desejo de justiça e solidariedade que brota até mesmo no coração de ateus.

Perguntaí

O que te levou a ser tradutor? Quais os pontos fortes e fracos dessa profissão? E o que tem de mais interessante em ser tradutor?

O que me levou a ser tradutor foi uma série de eventos que culminaram no desejo de trabalhar com esta incrível arte, ainda que menosprezada e desvalorizada. Há 9 anos, ajudei minha esposa (na época minha namorada) a traduzir um manual. Foi aí que tomei gosto pela coisa.

Sobre os pontos fortes? Bom, estar em contato constante com diversas culturas, ter de pesquisar, não só termos, mas também os motivos intrínsecos pelos quais os termos são escolhidos neste ou naquele contexto, são alguns dos pontos fortes em traduzir. Os pontos fracos? Entre muitos deles está a desvalorização da profissão, afinal, qualquer zé-da-esquina que tenha feito alguns dias de intercâmbio se sente apto a traduzir e interpretar. Além disso, algumas agências acabam fazendo "pregão" com suas atividades, jogando absurdamente o preço das traduções pra baixo. E hoje em dia muitos clientes não querem saber de qualidade, e sim de preço, e acabam escolhendo tais agências que muitas vezes contam com profissionais pouco capacitados em vez de escolherem bons profissionais que possam eventualmente cobrar mais caro.

O mais interessante em ser tradutor é o fato de que, enquanto na maioria das profissões de hoje, quando você envelhece acaba se tornando um peso morto, na tradução a experiência, tanto profissional como de vida, acaba melhorando o profissional, desde que este esteja sempre reciclando sua forma de pensar, aparando as arestas do passado e agregando valores do presente, contruindo o futuro.

Perguntaí