04 outubro 2009

Dizem que eu sou louco…

camisa_de_forca

Ontem (sábado – 4/10/09) fiz algo que não faço há muito tempo: fui à casa dos meus tios Zé e Cida (todo mundo tem um ou mais tios Zé e Cida, rsrsrs). O tio Zé é irmão da minha mãe. A tia Cida é a esposa dele.

Fazia mais ou menos uns 15 anos que eu não os visitava. Foi uma visita legal, pois gosto muito deles e lembro de ter passado momentos muito bons na casa deles. Foi um dia muito bom. Chegamos, tomamos um café, almoçamos, viemos embora, eu e a Sandra – minha esposa. Entre uma refeição e outra, conversamos sobre a vida, falamos de coisas do passado, e de coisas que o futuro nos reserva.

Tá. E por quê eu estou falando dessa visita aparentemente típica? O que você, que está lendo, tem a ver com essa história chata de visita aos tios?

Talvez a percepção sobre a minha história mude se eu contar pra vocês duas peculiaridades dos meus tios: eles são velhos (meu tio tem mais de 80 anos) e são evangélicos. E isso, durante um bate-papo descompromissado entre parentes, faz TODA a diferença…

Entre conversa-vai, conversa-vem, acabamos caindo no assunto “Deus”. É impossível conversar sem falar de Deus, ainda mais quando se sente à vontade para falar dEle. Aí nós contamos as “bênçãos”, falamos de ministério, etc.  Porém durante toda a conversa ficou evidente o abismo que separa o evangélico tradicional de um “cristão alternativo”. A todo momento eles queriam saber de que “igreja” nós éramos. Sempre que falávamos uma “bênção”, um momento de alegria, algo que fizemos dentro de alguma igreja, alguma pregação, evento, etc., eles nos perguntavam “é de igreja tal???” E eu simplesmente respondia com um “não”. E eu percebia que sempre ficava aquele sentimento de “eles não são tão evangélicos assim”, rsrsrs…

Algumas vezes, percebia a confusão total, pois conheço muita coisa da Assembléia de Deus, por exemplo, hinos, peculiaridades das reuniões, “doutrinas”. Isso devido ao fato de ter muitos amigos naquela denominação. Isso deixava meu tio pensando “ele parece assembleiano, mas também parece que não é”.

Percebi, enfim, que eles, meus tios, são extremamente evangélicos no sentido de defenderem a bandeira de sua denominação, ou, no mínimo, da sua filosofia (embora não tenham consciência de que estejam defendendo uma filosofia). E esse tradicionalismo se acentua por serem velhos e defenderem o que é tradicional, aquele negócio de que “antigamente era melhor.

Porém, por incrível que pareça, esse comportamento não é algo incomum. Não acontece só entre evangélicos e nem somente entre pessoas mais velhas.

Hoje, existem muitas pessoas que defendem o “evangelicalismo” como se fosse um time de futebol. Pessoas que brigam, choram, gritam e até chegam a bater para defender o “ser evangélico”, defender sua bandeira congregacional. Muita gente não se toca, mais isso é uma das maiores evidências da invasão do “mundo” dentro da Igreja. A igreja se acostumos a defender seus ideais como se estivesse defendendo um time político, um partido ou uma filosofia. E olha que isso não é algo novo, não. O apóstolo Paulo, segundo a Bíblia, lidava com isso já na sua época. Cristãos vivam se perguntando qual era o apóstolo mais correto, e defendiam suas filosofias com unhas e dentes. “Eu sou de Paulo, eu sou de Apolo”, e Paulo explica que um planta, o outro rega, mas quem faz crescer é Deus.

É óbvio que você deve estar dizendo “mas eu tô livre de tudo isso, graças a Deus, eu sou ALTERNATIVO!” Porém ,pense aí: quantas vezes você já não disse que não aguenta, não gosta e nem consegue conversar com “evangélicos”? Quantas vezes você, com ar de superioridade, já não se gabou, aí dentro da sua cabeça mesmo, dando “graças a Deus”, de não ser mais evangélico? Vou mais além: quantas vezes você já não pensou ser melhor do que os evangélicos, pois Deus lhe deu um entendimento “superior” em relação aos demais cristãos?

Quando adolescente, ainda sendo evangélico, embora fosse de uma igreja “underground”, passei por sentimentos como esse. Eu me sentia “a nata” dos evangélicos, a evolução, o “homo sapiens superior” (como diriam professor Xavier e Magneto) do cristianismo, pois não precisava de terno, gravata, hinários antigos, e dos ritualismos dos evangélicos tradicionais. Porém aos poucos percebi que eu, e mais alguns, estávamos criando um gueto dentro do gueto. Estávamos nos tornando “fariseus dentre os fariseus”.

Hoje, vejo que muito cristão que se considera alternativo passa por isso. Devagar, vamos nos fechando dentro de um mundinho dentro do mundinho dos evangélicos, vamos nos distanciando do mundo cristão, e nos tornando uma aberração pior do que aquilo que consideramos estranho.

Olhem que não estou aqui pregando que devemos nos conformar com as cagadas que evangélicos, católicos, ortodoxos, ou até nós mesmos, fazemos, tudo em prol da “união cristã”. É claro que devemos estar espertos para todo tipo de enganação e manipulação, mas o que digo é que não devemos nos sentir melhor do que ninguém, porque, se Jesus é a verdade, nós somos seguidores da verdade, e só a encontraremos de verdade quando chegarmos ao Céu, Paraíso, Nova Existência, Pós-morte, ou seja lá como chamam o período de vida após a vida.

“Hoje enxergo pelo espelho” dizia o apóstolo Paulo, exemplificando que hoje, indiferentemente de nosso grau de instrução, revelação ou comprometimento com o Evangelho, todos padecemos de uma miopia espiritual, e dependemos de Deus para conhecer aos outros, conhecermos a nós mesmos e conhecer a Ele. “Mas um dia vou enxergar claramente”, é Paulo tentando nos dizer que um dia, quando toda a aparência cair e esse mundo passar, passaremos a compreender as coisas de Deus de forma completa. Até lá somos todos cegos caminhando pela mesma estrada, dando de cabeça na parede, revoltando-nos e sendo trazidos de volta à razão por Deus. Somos como crianças que, não importa a idade, precisamos da mão do pai para nos guiar.

Que possamos nos colocar no nosso lugar, e possamos ter a humildade de assumir nossa ignorância em relação a Deus, e assumir nossa posição de loucos, nem melhores e nem piores, dentro desse grande manicômio que é o cristianismo, todos necessitando igualmente do Médico dos Médicos.

Postar um comentário