28 julho 2007

O Acidente Mais Horrível da História da Aviação x O Acidente de Nascer Pobre em uma Nação Omissa

Andei observando, ainda que não quisesse, toda a movimentação da mídia e da população brasileira em torno do acidente com o vôo 3054 da TAM (decorei o número do vôo, porque até ontem - sexta, 28 de julho - a primeira página da Folha de S. Paulo trazia a estampa da desgraça - pura osmose).
A nação ficou indignada, pedindo justiça às autoridades, e pedindo uma explicação para o presidente, que só se pronunciou sobre o assunto dias depois do acidente, segundo li num blog de um amigo meu, porque ele stava com "tersol".
Talvez o pior de tudo, para a nação, não tenha sido o acidente, mas a demora com que o chefe da falou sobre o caso, ofereceu suas condolências e serviços, anunciou as medidas a serem tomadas, enfim, o povo ficou "fulo" com a atitude tardia de um presidente, enquanto o mundo todo, minutos após o acidente, mandava suas mórbidas mensagens de conforto, nação das quais não esperaríamos nada mais doque uma nota na página do caderno voltado às notícias internacionais de seus países, como a Argentina e os E.U.A. É bonito ver uma nação que se movimenta e se levanta em protesto na mídia quando algo está errado. Quando isso acontece, podemos medir quão ligados estão os "filhos de uma pátria". Contudo, esse acidente ser viu para mostrar mais uma vez um grande problema da nossa nação: somos uma nação esquizofrênica, com pelo menos duas personalidades bem distintas. Independentemente do governo e da magnitude do acidente da TAM (realmente, como já constatado pela mídia, sem prescedentes), temos duas realidades, dois "brasís", dentro deste país. Uma das nações que encontramos aqui é o Brasil que se solidariza e oferece condolências aos familiares e amigos das vítimas do vôo 3054, que cobram uma atitude dos governantes e se indignam diante do descaso inicial do chefe-de-estado brasileiro em se pronunciar sobre o acidente. Porém, há um outro país, uma outra república dentro do Brasil, e esta me enoja: a nação que sequer olha para o mendigo que passa fome, que não presta condolências aos mortos nas estradas e nas mãos dos homicidas. É a nação que abre os olhos para um acidente - grande, sim - mas midiático, e que se fecha quando a mãe chora pelo filho que se tornou mais uma vítima do tráfico, que dá as costas para os seus filhos do nordeste, para os escravos-bóias-frias nos campos e para os flagelos do subemprego nas grandes metrópoles. É o país do movimentos "Viva Rio" e "Sou da Paz", que saem às ruas quando um cidadão classe-média-alta é assassinado, mas que não sabem os reais números das guerrilhas urbanas, à qual se submetem milhares de pessoas de bem, pais de família, filhos, mães. Como diz um amigo meu, a merda só fede quando chega às narinas da "high society", mas até aí, todo o resto da população já está afundado na bosta até "as tampas". Meus sinceros pêsames aos familiares e amigos do vôo 3054. Contudo, acho uma hipocrisia os que não são ligados aos mortos usarem luto e se vestirem de indignação somente nesta situação pois, para sermos justos, teríamos que nos enlutar até que o último brasileiro tivesse pelo menos casa e comida, e não apenas quando acontece um acidente de grande magnitude.
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